A Integração Pecuária-Floresta (IPF), também conhecida como Sistemas Silvipastoris, é uma estratégia de produção sustentável, onde o pecuarista consegue cultivar em uma mesma área a pecuária (pastagens e animais) e o componente florestal. A IPF é uma das quatro modalidades dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que na sua totalidade somam 17,43 milhões de hectares em todo Brasil. A IPF, pode ser adotada por pequenos, médios e grandes propriedades e proporciona diversos benefícios para o pecuarista, como: melhoria das características químicas, físicas e biológicas do solo, promove o bem-estar animal, além da diversificação da produção na propriedade e aumento da renda do pecuarista.
No entanto, para que o sistema seja eficiente e sustentável ao longo do tempo, alguns cuidados no planejamento, implantação e manejo são essenciais. Confira a seguir as principais etapas para o sucesso da IPF.
1) Planejamento e diagnóstico da propriedade: Consiste no levantamento de dados econômicos, existência de mercado para comercialização de seus possíveis produtos e das condições de clima e solo. Essas informações serão cruciais para escolha dos componentes do sistema que mais se adequam aos objetivos do pecuarista.
2) Escolha do componente arbóreo: Vai depender do objetivo do uso da madeira, se for apenas para sombreamento, pode-se optar pelo plantio de leguminosas arbóreas, como acácia, leucena, gliricídia, por exemplo. Se o objetivo for comercial (serraria e energia), espécies exóticas como o eucalipto, teca, mogno, paricá e cedro-australiano, são destaque no mercado. Mas atenção, essa escolha deve ser realizada de acordo com as condições de clima e solo de cada região.
3) Plantio e manejo do componente florestal:
- Adquira mudas de viveiros idôneos.
- Realize a correção e adubação de acordo com a análise de solo.
- Atenção a orientação de plantio das árvores, preferencialmente, no sentido leste-oeste, quando o objetivo é priorizar maior incidência de luz para o pasto, mas muitas vezes não será possível devido as condições de topografia da área. O importante é que em regiões de declive acentuado, seja feito o plantio em curvas de nível, para evitar a erosão do solo.
- O arranjo de plantio pode ser realizado de várias formas, com as árvores sendo implantadas aleatoriamente, em bosques, na divisa de cercas e em linhas simples, duplas, triplas, etc. Pensando na perenidade e persistência da pastagem no sub-bosque, prioriza-se utilização de espaçamentos mais amplos entre os renques de árvores, já o espaçamento entre árvores na linha, vai depender da espécie utilizada, devido ao crescimento da sua copa. Alguns exemplos de espaçamentos recomendados para eucalipto, são: 30 m x 2 m, 30 m x 3 m, 22 m x 4 m e se objetivo for aumentar o número de árvores pode se utilizar 30 m + (3 x 3,5 m) ou 30 m + (3 x 3 m). Se o objetivo for madeira para serraria, prioriza-se o arranjo em linhas simples, já se objetivo for carvão ou celulose, pode-se aumentar as linhas de plantio.
- Se o plantio das mudas for realizado em área onde a pastagem já está implantada, pode-se usar a cerca elétrica como aliada para os animais permanecerem na pastagem. Importante é proteger bem as mudas, mantendo sempre a capina para evitar competição com o mato.
- O controle de formigas deve ser realizado antes de iniciar o plantio das mudas e ao longo do plantio. E o monitoramento constante deve ser feito na área.
- A desrama, que é a retirada de galhos das árvores deve ser feita quando a espessura do tronco de 60% das árvores amostradas atingirem 6 cm de DAP (Diâmetro à altura do peito - esta medida é tomada no tronco na altura de 1,30 m do solo).
- O desbaste, que é o corte de árvores na área deve ser realizado de acordo com o planejamento. Um exemplo de planejamento de desbaste para eucalipto é: 1º com 4 a 5 anos após o plantio, 2º - 8 a 9 anos e 3º - 12 a 14 anos.
4) Escolha do componente pecuário (pastagem + animais): Assim como em áreas de pastagens em pleno sol, na IPF, os critérios de escolha da forrageira são os mesmos: analisar as condições de clima e solo, objetivos do produtor, qual animal e categoria que irá consumir essa forragem, nível tecnológico do pecuarista, e um fator a mais deve ser analisado, que é a tolerância da forrageira ao sombreamento. Vários estudos tem demonstrado que quando sombreamos muito o pasto (acima de 35% de sombra), a planta muda as suas características morfofisiológicas e começa a ocorrer o alongamento de talo, aumento da área foliar específica, redução no perfilhamento e enraizamento, resultando em menor produção de matéria seca e persistência do pasto, que irá impactar no ganho de peso dos animais. Por isso, é importante a escolha de espaçamentos mais amplos e práticas de manejo do componente arbóreo, que irá permitir maior incidência de luz para o pasto. As gramíneas forrageiras tropicais que tem se destacado sendo mais tolerantes à sombra, são as do gênero Brachiaria: Brachiaria decumbens, Brachiaria brizantha cv. Piatã, Brachiaria brizantha cv. Marandu, Brachiaria brizantha cv. Xaraés, Brachiaria brizantha cv. Paiaguás e as cultivares do gênero Panicum: Panicum maximum cv. Massai, Panicum maximum cv. Aruana e Panicum maximum cv. Mombaça. Essas forrageiras são recomendadas para pecuária de leite e corte.
5) Plantio e manejo da pastagem:
- Adquira sementes de empresas idôneas.
- Realize correção e adubação de acordo com análise de solo.
- Escolha forrageiras que são mais tolerantes a sombra, mas atenção ao nível de sombreamento que não deve exceder a 35%.
- Faça a incorporação das sementes (Panicum até 3 cm e Brachiaria até 5 cm).
- Monitore o ataque de pragas.
- Realize o controle de plantas daninhas.
- Não deixe o pasto sementear para iniciar o primeiro pastejo. Faça pastejos com animais mais leves quando a planta atingir altura de pastejo. Mas atenção, faça o teste do arranquio antes de colocar os animais na área. Esse primeiro pastejo deve ser realizado com animais mais leves e por um período mais curto, para estimular o perfilhamento.
- Maneje o pasto por altura e não por dias fixos em pastejo rotativo, e em pastejo contínuo, mantenha o pasto na faixa de altura recomendada para cada forrageira.
- Respeite a altura de entrada e saída dos animais da pastagem.
- Faça adubação de cobertura.
Considerações finais
A Integração Pecuária-Floresta (IPF) é uma tecnologia sustentável que traz diversos benefícios ao pecuarista, quando comparado aos sistemas de monocultura. No entanto, é um sistema mais complexo e que deve ser manejado respeitando essas particularidades. A densidade de árvores deve proporcionar sombreamento moderado (até 35%), visando otimizar a produção do pasto e consequentemente a produção animal. As forrageiras mais utilizadas em sistemas pecuários são moderadamente tolerantes ao sombreamento e indicadas para IPF. Não existe uma receita de bolo para IPF, cada pecuarista e propriedade tem suas particularidades que devem ser levadas em consideração na hora da escolha dos componentes do sistema.
Se você que saber mais sobre sistemas integrados leia o livro “No pasto é mais barato” acessando o link: https://pastofert.com/produtos/no-pasto-e-mais-barato/
Elaboração conteúdo técnico:
Marina Aparecida Lima - Dra. em Zootecnia | Pesquisadora – EPAMIG SUL / CERN
